Entre promessas e práticas no futuro energético do Brasil

Foto de Jamil Mouallem - Diretor Comercial

*Por Jamil Mouallem

A discussão sobre o futuro da energia no Brasil está mudando de tom. Já não basta falar em geração limpa, é preciso falar em infraestrutura inteligente, capaz de sustentar a transição energética com estabilidade, equidade e eficiência. A COP30 colocou o Brasil no centro do debate global sobre energia e clima, e agora vem a parte mais difícil: transformar compromissos em infraestrutura concreta. As declarações de intenção foram fortes, os anúncios ambiciosos, mas o verdadeiro teste começa no retorno para casa, quando governos, empresas e comunidades precisam traduzir metas em projetos tangíveis e duradouros.

O país sai da conferência com uma posição privilegiada: mais de 93% da sua geração elétrica em 2024 veio de fontes renováveis, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME). É uma conquista rara num mundo que ainda depende fortemente de combustíveis fósseis. Mas essa vantagem traz também uma nova responsabilidade: garantir que a rede elétrica seja tão resiliente quanto sustentável.

Nos últimos anos, o Brasil viveu um paradoxo. Enquanto expandia sua matriz limpa, aumentava também a exposição a riscos climáticos e operacionais. Dados do INPE indicam que 2024 foi o ano com maior número de eventos extremos desde 2009, com tempestades e ondas de calor que afetaram diretamente a estabilidade do sistema elétrico. Falhas em subestações, quedas de energia em centros urbanos e interrupções no fornecimento industrial mostraram que, por trás da energia limpa, ainda falta muita inteligência operacional.

A agenda pós-COP30 precisa olhar para esse ponto cego. O conceito de resiliência energética não se resume à geração, mas à capacidade de prevenir, absorver e responder a choques, sejam climáticos, tecnológicos ou sociais. Isso implica em três prioridades claras para os próximos anos.

A primeira é modernizar a infraestrutura elétrica com automação, sensores e sistemas de controle digital que permitam isolar falhas e redistribuir energia em tempo real. Segundo a Aneel, redes inteligentes podem reduzir até 25% das perdas não técnicas e aumentar significativamente a previsibilidade operacional.

A segunda prioridade é investir em armazenamento e microrredes (microgrids). A BloombergNEF aponta que o custo das baterias caiu quase 90% desde 2010, tornando-as alternativas reais para o armazenamento local e o fornecimento ininterrupto de energia em hospitais, escolas e data centers. Microrredes híbridas, combinando solar,

eólica e backup inteligente, já se mostram uma resposta eficaz a falhas regionais e podem ser o coração de comunidades autossuficientes.

E a terceira é incluir a resiliência social na equação. As populações mais vulneráveis continuam sendo as mais afetadas quando a energia falha. Por isso, programas de transição energética precisam incorporar formação técnica local, linhas de crédito verdes e incentivos regionais para reduzir desigualdades de acesso. De nada adianta gerar energia limpa se ela não chega de forma confiável a quem mais precisa.

A COP30 foi um marco diplomático, mas o verdadeiro legado será medido em transformações estruturais. O Brasil tem o potencial de ser não apenas um exportador de energia renovável, mas também um laboratório vivo de infraestrutura inteligente e adaptativa, capaz de resistir a choques climáticos e garantir continuidade produtiva em qualquer cenário.

Resiliência, afinal, é mais do que resistir: é evoluir com cada crise. E se o país conseguir combinar sua vocação renovável com uma visão técnica e social de longo prazo, poderá iluminar o futuro, não apenas com energia limpa, mas com estabilidade, inclusão e confiança.

*Jamil Mouallem é sócio-diretor Comercial e de Marketing da TS Shara indústria nacional fabricante de nobreaks, inversores e estabilizadores de tensão e protetores de rede inteligente.

 

Fonte: CanalEnergia – 19/12/25

Deixe um comentário