*Por Jamil Mouallem
Há um certo fascínio em torno da automação no varejo. Telas inteligentes, painéis de LED, checkouts autônomos, integração em tempo real entre canais físicos e digitais, tudo parece apontar para um futuro onde eficiência e experiência caminham lado a lado. E, de fato, caminham. Mas há um detalhe menos glamouroso que sustenta tudo isso: energia. E sem ela, o que deveria ser estratégia vira interrupção.
Os números mostram o tamanho dessa transformação. Segundo a Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (ABIACOM), o e-commerce brasileiro já ultrapassou a marca de R$ 200 bilhões em faturamento anual, com crescimento consistente acima de dois dígitos e projeções ainda mais ambiciosas para os próximos anos. Em paralelo, de acordo com a mesma entidade, o setor segue acelerando em volume e, apenas em 2025, o faturamento chegou a R$ 235,5 bilhões, com alta de 15,3% sobre o ano anterior.
Esse avanço não acontece por acaso. Ele é impulsionado, em grande parte, pela automação, seja na personalização de ofertas, na gestão de estoque ou na jornada de compra.
Mas aqui está o ponto que muitas vezes fica fora da conversa: automação não é só software. Não é só inteligência artificial. Não é só integração de sistemas. Automação é infraestrutura e infraestrutura depende de energia contínua, estável e confiável.
É curioso como, em muitos projetos, a discussão começa pela camada mais visível, a experiência do cliente. Como reduzir filas, como acelerar o pagamento, como integrar canais. Tudo isso é válido. Mas raramente a primeira pergunta é o que acontece quando a energia falha. E ela, infelizmente, falha.
Em um ambiente cada vez mais digitalizado, a indisponibilidade energética deixou de ser apenas um inconveniente operacional. Ela impacta diretamente receita, reputação e confiança. Um sistema fora do ar não significa apenas uma venda perdida, significa um cliente que talvez não volte. Em operações automatizadas, onde processos são encadeados e dependentes entre si, uma interrupção pode gerar um efeito cascata difícil de conter.
Ao mesmo tempo, o próprio setor de automação comercial vive uma mudança de maturidade. Como discutido recentemente na AUTOCOM, o debate deixou de ser sobre adoção e passou a ser sobre eficiência, escala e retorno. Isso muda tudo. Porque eficiência não se sustenta sobre bases instáveis.
Existe uma espécie de ilusão silenciosa no varejo atual, a de que tecnologia resolve tudo. Mas tecnologia sem sustentação é só aparência. É a loja bonita, com telas modernas, sistemas sofisticados e processos inteligentes que simplesmente param quando a energia oscila. E é aí que todo o investimento vira vitrine.
Talvez o verdadeiro avanço do setor não esteja apenas em digitalizar operações, mas em torná-las resilientes. Em entender que a experiência do cliente não depende só do que ele vê, mas daquilo que nunca deveria perceber, como a continuidade do serviço.
No fim das contas, automação de verdade não é aquela que impressiona quando funciona. É aquela que continua funcionando quando tudo ao redor falha. E isso começa, inevitavelmente, pela energia.
*Jamil Mouallem é sócio-diretor da TS Shara indústria nacional fabricante de nobreaks, inversores e estabilizadores de tensão e protetores de rede inteligente.
08/04/26 – Portal Fator Brasil
