*Por Jamil Mouallem
Durante anos, o avanço das Telecomunicações no Brasil foi medido por indicadores claros: mais cobertura, mais velocidade, mais acessos. E os números mostram que essa agenda avançou. O país encerrou 2025 com cerca de 53,9 milhões de acessos de banda larga fixa, sendo que aproximadamente 79% dessas conexões já são realizadas por fibra óptica, segundo dados da Anatel.
Esse salto tecnológico consolidou uma base digital robusta, capaz de sustentar desde o crescimento dos serviços online até a digitalização de setores inteiros da economia. O próprio mercado móvel reforça essa transformação: foram 270,2 milhões de acessos em 2025, de acordo com o painel da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), vinculada ao Ministério das Comunicações, evidenciando o quanto a conectividade se tornou onipresente no cotidiano brasileiro.
E é justamente nesse ponto que surge um gargalo ainda pouco discutido: toda essa infraestrutura, cada vez mais sofisticada, depende de um elemento básico, e muitas vezes negligenciado, para funcionar: a energia elétrica.
A lógica da evolução das redes sempre priorizou capacidade de transmissão, latência e cobertura. No entanto, à medida que a conectividade se torna essencial para operações críticas, a discussão sobre sua sustentação energética deixa de ser secundária. Data centers, redes de fibra, antenas e equipamentos de borda exigem fornecimento contínuo, estável e protegido contra oscilações que, embora breves, podem gerar impactos significativos.
O paradoxo é evidente. Quanto mais avançamos na digitalização, mais vulneráveis nos tornamos a falhas que não estão na rede em si, mas na infraestrutura que a mantém ativa. A conectividade pode ser de alta performance, mas sem energia confiável, ela simplesmente não existe.
Esse desafio ganha ainda mais relevância em um cenário de crescente consumo digital. Aplicações em nuvem, inteligência artificial, streaming e sistemas em tempo real ampliam a demanda por disponibilidade constante, elevando o custo de qualquer interrupção. Não se trata mais de conveniência, trata-se de continuidade operacional.
Ao mesmo tempo, tecnologias tradicionais seguem perdendo espaço. A telefonia fixa, por exemplo, caiu de cerca de 23 milhões de acessos para 20,1 milhões em 2025, uma retração de aproximadamente 12,6%, refletindo a migração definitiva para um ambiente digital, onde praticamente tudo depende de redes ativas de forma ininterrupta.
A evolução das telecomunicações, portanto, não revelou apenas avanços. Ela expôs uma camada estrutural que por muito tempo ficou em segundo plano. O debate sobre conectividade precisa amadurecer para além da velocidade e da cobertura e incorporar, de forma definitiva, a discussão sobre resiliência energética.
Porque, no fim do dia, não é a ausência de sinal que derruba uma operação, é a ausência de energia. E essa é uma variável que não pode mais ser tratada como coadjuvante em um país que já decidiu ser digital.
*Jamil Mouallem é sócio-diretor da TS Shara, indústria nacional fabricante de nobreaks, inversores e estabilizadores de tensão e protetores de rede inteligente.
Revista Fator Brasil – 08/04/26
