Eleições 2026: a resiliência energética por trás do processo eleitoral

Jamil Mouallem, sócio-diretor da TS Shara, destaca a infraestrutura energética

 

Com 158,7 milhões de eleitores e uma operação que envolve mais de 563 mil urnas, transmissão de dados e sistemas de totalização, especialista explica por que a continuidade energética também faz parte da resiliência do processo eleitoral
Quando a urna eletrônica é desligada e o eleitor deixa a seção, o trabalho tecnológico das eleições ainda está longe de terminar. Os dados registrados precisam percorrer um longo caminho até a divulgação dos resultados, que envolve gravação, transmissão, recebimento, totalização, validação e divulgação dos resultados. Em localidades de difícil acesso, como aldeias indígenas e comunidades ribeirinhas, o próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) prevê a transmissão dos dados via satélite a fim de garantir o acesso à votação.
Essa complexa cadeia de infraestrutura tecnológica do processo eleitoral ainda é um tema pouco explorado por especialistas do setor. O debate continua se concentrando nas urnas, nos sistemas de segurança digital, no combate ao ciberataques mas esquecem que por trás de toda essa operação existe uma camada física que sustenta e viabiliza o processo eleitoral: redes de comunicação, equipamentos de transmissão, servidores, sistemas de processamento e estruturas responsáveis por manter os dados disponíveis durante as diferentes etapas da eleição.
Ponta do iceberg
E a própria urna eletrônica oferece um bom exemplo de como a continuidade operacional pode ser incorporada a um projeto de infraestrutura crítica: baterias internas recarregáveis garantem a disponibilidade do serviço por diversas horas mesmo sem conexão direta com a rede elétrica, permitindo no dia da eleição, serem transportadas e utilizadas de forma autônoma por diferentes locais de votação. Essa autonomia energética é um dos elementos essenciais que contribuem para a eficiência e a resiliência energética das urnas, contribuindo para revelar uma questão tão importante quanto a segurança: a resiliência energética. A urna é apenas a ponta do iceberg de uma operação tecnológica muito mais ampla e complexa.
Nas Eleições Gerais de 2026, essa infraestrutura terá de atender 158,7 milhões de eleitores em todo o país. E a preparação tecnológica já entrou em sua fase final: no dia 4 de setembro, o TSE concluiu a assinatura digital e a lacração dos sistemas eleitorais que serão utilizados no pleito, encerrando o desenvolvimento dos programas e estabelecendo as versões oficiais que serão empregadas nas eleições.
Para Jamil Mouallem, engenheiro elétrico e sócio-diretor da TS Shara, olhar para a infraestrutura que sustenta o processo é tão importante quanto discutir a segurança dos sistemas em si. “Quando falamos em segurança de uma operação totalmente digitalizada, normalmente pensamos em software, dados, autenticação e ataques cibernéticos. Mas existe uma camada anterior a tudo isso. Se o equipamento que processa, armazena ou transmite uma informação não consegue permanecer ligado e protegido diante de uma falha elétrica, toda a estrutura digital fica comprometida. Segurança também passa pela disponibilidade da infraestrutura energética”, explica.
A questão ganha outra dimensão quando se considera a extensão territorial do país. Uma eleição nacional não acontece em um único ambiente tecnológico. São diferentes locais de votação, tribunais regionais, pontos de transmissão e estruturas de processamento conectados dentro de uma mesma rede. Em regiões onde a comunicação convencional não é suficiente, soluções via satélite entram em cena para garantir que os dados cheguem ao seu destino, preservando a integridade e autenticidade das informações.
Em 2026, o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas, por exemplo, prevê o uso de comunicação via satélite em centenas de localidades de difícil acesso. A estrutura permite que os dados produzidos nas seções eleitorais sejam encaminhados mesmo em regiões onde a infraestrutura convencional de telecomunicações não oferece as mesmas condições de conectividade.
Essa dependência de diferentes camadas de infraestrutura torna a continuidade operacional um desafio tão importante quanto a proteção dos sistemas. Uma falha de energia não significa que uma urna simplesmente deixará de funcionar, justamente porque o equipamento conta com mecanismos próprios de autonomia. O ponto está em olhar para os equipamentos de comunicação, redes, servidores e demais estruturas que fazem parte da cadeia tecnológica ao redor do processo eleitoral.
“É importante separar a urna da infraestrutura que existe ao redor dela. A urna foi projetada para funcionar de maneira autônoma, mas uma eleição envolve muito mais tecnologia do que o equipamento utilizado pelo eleitor. Existe uma cadeia de comunicação e processamento que precisa permanecer disponível. É nessa camada que energia, proteção elétrica e autonomia passam a ser fatores de resiliência”, afirma o especialista.
O próprio processo de totalização dos resultados demonstra essa dependência. Depois do encerramento da votação, os dados são gravados em mídias e encaminhados para transmissão. Os arquivos chegam ao Centro de Recebimento de Arquivos da Totalização e, a partir daí, passam pelos sistemas responsáveis pelo gerenciamento e pela consolidação dos resultados.
Em uma operação robusta desse nível, não basta pensar no que acontece quando tudo funciona normalmente. A capacidade de continuar operando diante de uma interrupção também precisa fazer parte do planejamento.
“Resiliência não significa eliminar completamente a possibilidade de uma falha. Significa criar condições para que uma ocorrência não provoque um efeito em cascata. Quando uma operação é crítica, precisamos saber quais equipamentos não podem parar, quanto tempo eles precisam permanecer funcionando e quais mecanismos de contingência serão acionados se a interrupção persistir”, explica o engenheiro.
Da eleição para qualquer operação crítica
A lógica aplicada à infraestrutura eleitoral também ajuda a entender um desafio que já está presente em empresas, hospitais, instituições financeiras, data centers e outros ambientes críticos, que dependem de tecnologia para funcionar.
O primeiro passo é identificar quais equipamentos são realmente críticos e definir o nível de autonomia necessário para cada um. Servidores, equipamentos de rede, sistemas de comunicação e dispositivos responsáveis pela transmissão de informações podem exigir diferentes níveis de proteção e tempo de sustentação.
Nobreaks e outras soluções de proteção energética ajudam a manter equipamentos essenciais ativos durante interrupções, além de protegê-los contra oscilações e surtos que podem comprometer a vida útil dos componentes eletrônicos. Em operações mais críticas, a redundância também reduz a dependência de um único equipamento ou fonte de alimentação.
Outro ponto é que a infraestrutura precisa ser pensada em conjunto. Ter backup de dados não resolve uma indisponibilidade se o equipamento que precisa acessar esse backup estiver sem energia. Ter uma rede redundante também não é suficiente se os equipamentos de comunicação estiverem vulneráveis a oscilações elétricas.
“De nada serve construir uma operação digital altamente segura e deixar a infraestrutura física como um ponto cego. A resiliência precisa ser pensada de ponta a ponta, considerando energia, comunicação, equipamentos, redundância e recuperação. Quanto mais crítica é uma operação, menos espaço existe para depender de um único ponto de falha”, conclui Mouallem.
Nas eleições, essa lógica ganha uma escala particularmente relevante, mas a lição ultrapassa o processo eleitoral: em um país cada vez mais dependente de sistemas digitais, a disponibilidade da tecnologia começa muito antes da tela acender e continua mesmo depois que o usuário encerra sua interação.
Fonte: PartnerSales – 21/09/26

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