Quando o ataque termina, começa o desafio de voltar a operar em segurança

Fabica sofeendo um blackout

Operar em segurança exige muito mais do que proteger sistemas, bloquear ameaças ou recuperar dados depois de um ataque cibernético. Em um cenário corporativo cada vez mais digital, a continuidade das atividades também depende da infraestrutura física que sustenta servidores, redes, sistemas de armazenamento, equipamentos industriais e uma série de outros recursos indispensáveis para o funcionamento das empresas.

Por Pedro Al Shara, CEO da TS Shara, indústria nacional fabricante de nobreaks, estabilizadores de tensão e protetores de rede inteligentes

Quando uma empresa sofre um ataque cibernético, a primeira preocupação, e também a mais urgente, costuma ser entender o que foi comprometido na operação para, então, tomar as demais medidas de investigação, contenção, recuperação e restauração dos dados, visando restabelecer o mais rápido possível a normalidade das atividades.

Há muita coisa em jogo, além dos prejuízos financeiros. Reputação e credibilidade, por exemplo, são valores intangíveis, mas que muitas vezes revelam-se tão decisivos para a sobrevivência das organizações quanto os próprios recursos financeiros.

Esse cenário de crise, no qual o tempo e a pressão jogam a favor do inimigo, tem permeado as discussões de gestores e especialistas em segurança da informação. Com ataques cada vez mais sofisticados e velozes, as equipes de TI também precisam se preocupar com a infraestrutura física que comporta e permite que as organizações se defendam nessa “guerra cibernética”.

Essa realidade tem se tornado cada vez mais comum em ambientes corporativos, onde ataques e golpes digitais ganharam escala e sofisticação. Grande parte desse movimento é facilitada pelo próprio avanço tecnológico, como ocorre com a Inteligência Artificial (IA), que vem provocando uma verdadeira transformação estrutural no ambiente corporativo e remodelando a forma como as empresas operam, competem e tomam decisões.

Essa ambiguidade da inovação, que, ao mesmo tempo em que acelera a eficiência operacional, também pode ampliar as ameaças digitais e a superfície de ataque, exige dos times de segurança de TI e também do board uma visão mais ampla sobre os recursos que sustentam e mantêm as corporações em funcionamento.

Tenho percebido essa preocupação refletida em eventos do setor, como o Mind The Sec, que passou a dar mais espaço em sua programação para temas relacionados à recuperação de desastres, continuidade de negócios e resposta a incidentes. Esse movimento demonstra uma mudança importante: segurança não deve ser compreendida apenas como a capacidade de impedir um ataque, mas também como parte da capacidade de uma organização atravessar uma crise e continuar funcionando.

Da recuperação digital à necessidade de operar em segurança

Quando analisamos mais profundamente os ambientes industriais e como eles tratam e reagem aos ciberataques e golpes digitais, começamos a entender por que esse ciclo é tão complexo e merece atenção.

O relatório State of ICS/OT Security 2025, do SANS Institute, mostra que 21,5% das organizações pesquisadas no período sofreram um incidente de cibersegurança em ambientes de tecnologia operacional. Além disso, quatro em cada dez casos registraram interrupção da operação. Outro dado que chama atenção está relacionado ao tempo de recuperação: quase metade dos incidentes foi detectada em até 24 horas, enquanto 20% levou mais de um mês para ser totalmente remediada.

O que esses números nos mostram? Detectar uma ameaça está longe de significar que o trabalho terminou.

Qualidade energética como ativo estratégico para a continuidade das operações

Em ambientes corporativos, independentemente do porte ou segmento, a retomada das operações envolve servidores, máquinas virtuais, sistemas de armazenamento, switches e uma série de outros componentes que precisam voltar a conversar entre si.

Em uma operação industrial, por exemplo, essa complexidade pode ser ainda maior em razão dos inúmeros controladores, sistemas e sensores eletrônicos que fazem parte do processo de produção e sem os quais determinadas atividades não podem funcionar adequadamente.

Cada ambiente carrega suas particularidades. Portanto, nem sempre é possível simplesmente religar tudo e esperar que o funcionamento seja restabelecido.

E aí surge outro questionamento: o que pode estar impedindo a retomada, mesmo que gradual, das atividades?

Tão imprescindível quanto qualquer outro recurso básico para a infraestrutura tecnológica, a energia que alimenta esses sistemas é fundamental para que a recuperação aconteça sem acrescentar novos danos ou prejuízos àqueles que a organização já enfrentou durante o ataque.

Basta imaginar um servidor que precisa ser inicializado depois de um incidente. Ele depende de uma fonte de energia estável. O mesmo vale para equipamentos de armazenamento e dispositivos de comunicação responsáveis por reconstruir a conexão entre diferentes partes da rede e com a internet.

Durante uma recuperação, muitos desses equipamentos podem passar por desligamentos, reinicializações e testes sucessivos. Nesse contexto, uma instabilidade elétrica pode acrescentar um novo problema a uma situação que já exige bastante das equipes técnicas.

Para quem acompanha a evolução da eletrônica e da infraestrutura elétrica, isso não é novidade. Equipamentos mais sofisticados concentram uma quantidade cada vez maior de componentes em espaços menores e trabalham com níveis de precisão que exigem condições adequadas de alimentação energética.

Uma oscilação de tensão, um surto ou mesmo uma interrupção, ainda que muito breve, pode provocar uma reinicialização ou afetar um componente sensível. Em condições normais, isso já representaria um transtorno. Durante uma recuperação, entretanto, pode significar refazer uma etapa que levou horas para ser concluída.

Ter os dados não significa ter a operação

Existe uma diferença relevante entre ter os dados disponíveis e ter uma operação disponível.

Um backup íntegro não coloca, sozinho, uma empresa de volta ao trabalho. É preciso que os equipamentos capazes de acessar, processar, armazenar e transmitir essas informações estejam prontos para funcionar.

A recuperação digital tem, portanto, uma dimensão muito mais ampla do que a restauração de arquivos.

Essa percepção deveria fazer parte do planejamento de continuidade. Segurança cibernética, cópias de segurança, redundância de sistemas, conectividade e proteção elétrica cumprem funções diferentes, embora estejam ligadas pelo mesmo objetivo: reduzir o tempo e o impacto de um incidente.

Se uma dessas camadas falha justamente no momento da retomada, o esforço realizado nas demais pode perder parte de seu efeito.

Além disso, a questão ganha ainda mais relevância conforme a tecnologia ocupa um espaço maior dentro das empresas. Sistemas digitais já participam da produção, da logística, das comunicações, das transações financeiras e de processos que antes dependiam de outras formas de controle.

A dependência cresceu. Por outro lado, nem sempre a infraestrutura necessária para sustentar essa operação recebeu a mesma atenção.

Resiliência energética para operar em segurança

Resiliência, nesse sentido, não deveria ser medida apenas pela capacidade de impedir um ataque ou restaurar um arquivo. Ela também está na condição de colocar os equipamentos novamente em funcionamento, manter os sistemas estáveis e oferecer às equipes o ambiente necessário para reconstruir aquilo que foi interrompido.

A continuidade começa na infraestrutura

No fim, a recuperação de um incidente cibernético acontece em um lugar bastante físico.

Servidores precisam ligar. Redes precisam permanecer disponíveis. Equipamentos precisam processar informações. Sistemas precisam voltar a se comunicar. Máquinas e dispositivos precisam receber energia adequada para executar suas funções.

A camada digital conduz boa parte dessa resposta, mas depende de uma estrutura concreta para sustentá-la.

É nesse ponto que a infraestrutura elétrica passa a integrar uma discussão que, durante muito tempo, esteve concentrada quase exclusivamente em software, dados e redes.

Proteger a alimentação elétrica não substitui as ferramentas de cibersegurança, os backups, a redundância ou os planos de resposta a incidentes. Da mesma forma, um nobreak ou outro recurso de proteção elétrica não impede, por si só, um ataque cibernético.

Entretanto, essas soluções podem fazer parte de uma estratégia mais ampla de continuidade, contribuindo para que os equipamentos críticos tenham condições adequadas de funcionamento diante de interrupções e distúrbios elétricos.

Energia também faz parte da estratégia de segurança

À medida que as empresas digitalizam seus processos, a fronteira entre segurança digital e infraestrutura física torna-se cada vez menos evidente.

Um ataque pode começar no ambiente virtual, mas suas consequências podem chegar à operação física. Da mesma maneira, uma falha na infraestrutura elétrica pode comprometer equipamentos e interromper processos importantes para a recuperação.

Por isso, pensar em resiliência significa conectar diferentes camadas da infraestrutura.

É preciso considerar a proteção dos dados, a segurança das redes, a redundância dos sistemas, a recuperação de desastres, a conectividade e também as condições de energia que permitem que toda essa estrutura continue funcionando.

Operar em segurança, portanto, não significa apenas impedir que uma ameaça entre. Significa também criar condições para que a organização consiga responder, recuperar-se e retomar suas atividades com o menor impacto possível.

O desafio de transformar continuidade em prática

O planejamento de continuidade costuma ganhar atenção quando uma crise acontece. Entretanto, sua verdadeira importância está justamente no trabalho realizado antes dela.

Assim, mapear sistemas críticos, identificar dependências, estabelecer prioridades de recuperação e avaliar a infraestrutura que sustenta cada processo são etapas fundamentais para reduzir o impacto de uma interrupção.

Nesse contexto, a energia elétrica precisa deixar de ser vista apenas como um recurso básico e passar a ser considerada parte da infraestrutura estratégica.

Quanto mais digitalizada é uma operação, maior tende a ser sua dependência de equipamentos eletrônicos e sistemas conectados. Consequentemente, garantir condições adequadas para que essa infraestrutura funcione torna-se uma questão diretamente relacionada à continuidade dos negócios.

No final, a pergunta não deveria ser apenas se uma empresa consegue recuperar seus dados depois de um ataque.

Também precisamos perguntar se ela possui estrutura para colocar seus sistemas novamente em funcionamento, manter seus equipamentos estáveis e operar em segurança durante todo esse processo.

A resposta passa por uma visão integrada de segurança, continuidade e infraestrutura.

FAQ: cibersegurança, energia e continuidade das operações

1. Por que a energia elétrica é importante durante a recuperação de um ataque cibernético?

Porque servidores, dispositivos de rede, sistemas de armazenamento e outros equipamentos precisam continuar funcionando para que as equipes consigam investigar, recuperar e restabelecer os sistemas afetados.

2. Um ataque cibernético pode causar impactos na infraestrutura física?

Sim. Dependendo do ambiente e do tipo de ataque, sistemas digitais podem estar conectados a equipamentos e processos físicos. Em ambientes industriais, por exemplo, a tecnologia operacional pode controlar ou monitorar processos produtivos.

3. Backup é suficiente para recuperar uma empresa depois de um ataque?

Não necessariamente. O backup permite recuperar informações, mas a empresa também precisa contar com equipamentos, sistemas, conectividade e infraestrutura capazes de acessar e processar esses dados novamente.

4. O que significa operar em segurança durante uma recuperação?

Significa manter as condições necessárias para que sistemas e equipamentos continuem funcionando de maneira adequada enquanto as equipes realizam as etapas de contenção, recuperação e retomada da operação.

5. Qual é a relação entre nobreak e continuidade de negócios?

O nobreak pode contribuir para a continuidade ao fornecer alimentação durante interrupções e ajudar a proteger equipamentos contra determinados distúrbios elétricos, conforme suas características e aplicação.

6. Um nobreak impede ataques cibernéticos?

Não. O nobreak atua na infraestrutura elétrica. A proteção contra ataques cibernéticos depende de recursos específicos de segurança da informação, como controles de acesso, monitoramento, atualização de sistemas, segmentação de redes e outras medidas.

7. O que é resiliência energética?

É a capacidade de uma infraestrutura manter ou recuperar suas condições de funcionamento diante de eventos que possam afetar o fornecimento ou a qualidade da energia elétrica.

8. Por que a qualidade da energia importa para servidores?

Servidores e outros equipamentos eletrônicos dependem de uma alimentação adequada para funcionar corretamente. Oscilações, surtos e interrupções podem provocar desligamentos, reinicializações ou outros impactos, dependendo do equipamento e da intensidade do evento.

9. Ambientes industriais precisam de atenção especial?

Ambientes industriais podem apresentar maior complexidade porque combinam sistemas de TI com tecnologias operacionais, controladores, sensores, máquinas e outros equipamentos eletrônicos. Uma interrupção pode afetar diferentes etapas de um processo.

10. Qual é a diferença entre segurança cibernética e continuidade de negócios?

A segurança cibernética concentra-se na proteção de sistemas, redes, dados e ativos digitais. Já a continuidade de negócios busca garantir que processos essenciais possam continuar ou ser recuperados diante de interrupções.

11. Por que a recuperação pode levar mais tempo do que a detecção de um ataque?

Detectar uma ameaça é apenas uma das etapas da resposta. Depois disso, as equipes precisam investigar o incidente, conter seus efeitos, eliminar a ameaça, validar sistemas, recuperar dados e restabelecer a operação.

12. A infraestrutura elétrica deve fazer parte do plano de recuperação de desastres?

Sim. Quando equipamentos elétricos e eletrônicos são essenciais para processos críticos, avaliar sua alimentação e proteção ajuda a identificar possíveis pontos de dependência durante a recuperação.

13. Uma pequena interrupção de energia pode causar problemas?

Pode. O impacto depende do equipamento, da duração da interrupção, do estado da operação e das proteções disponíveis. Em processos de recuperação, uma reinicialização inesperada pode exigir a repetição de etapas já realizadas.

14. Por que a digitalização aumenta a importância da infraestrutura elétrica?

Porque mais processos passam a depender de servidores, redes, sistemas de armazenamento, dispositivos conectados e equipamentos eletrônicos. Dessa forma, a disponibilidade desses recursos passa a ser diretamente relevante para a continuidade da operação.

15. Proteger energia substitui outras medidas de segurança?

Não. A proteção elétrica é apenas uma das camadas de uma estratégia de continuidade. Ela deve coexistir com segurança cibernética, backups, redundância, monitoramento e planos de resposta e recuperação.

16. Como empresas podem identificar seus sistemas críticos?

Uma abordagem consiste em mapear processos essenciais, identificar os sistemas e equipamentos que os sustentam e estabelecer prioridades de recuperação. Assim, as equipes conseguem compreender quais recursos precisam voltar a funcionar primeiro.

17. O que acontece quando um equipamento é reiniciado durante uma recuperação?

Dependendo do equipamento e do processo, o reinício pode interromper uma tarefa em andamento, exigir nova inicialização ou obrigar a equipe a repetir determinadas etapas. Por isso, estabilidade da alimentação é importante durante a recuperação.

18. A resiliência depende apenas da tecnologia?

Não. Tecnologia, processos e pessoas precisam trabalhar em conjunto. Além disso, planos de continuidade precisam ser conhecidos pelas equipes e testados para identificar possíveis falhas antes de uma situação real.

19. Por que segurança e continuidade precisam ser analisadas em conjunto?

Porque impedir um incidente é apenas uma parte da proteção. Quando uma ocorrência acontece, a capacidade de responder, recuperar sistemas e retomar processos também determina o impacto final sobre a organização.

20. O que significa, na prática, estar preparado para operar em segurança?

Significa compreender as dependências da operação e estabelecer camadas de proteção e recuperação para dados, sistemas, equipamentos, conectividade e infraestrutura elétrica. Dessa maneira, a empresa aumenta sua capacidade de atravessar uma interrupção e retomar suas atividades.

Conclusão

A transformação digital trouxe ganhos importantes para empresas de diferentes setores, mas também ampliou a dependência de sistemas eletrônicos, conectividade e infraestrutura tecnológica.

Por isso, a discussão sobre segurança não pode terminar no ambiente virtual.

Assim, uma organização realmente preparada precisa considerar o caminho completo entre o incidente e a retomada da operação. Isso envolve proteger dados, fortalecer sistemas, estabelecer planos de recuperação, manter redundâncias e avaliar as condições da infraestrutura física que sustenta todo esse ecossistema.

portanto, a energia elétrica está no centro dessa estrutura. Embora não seja uma solução para ataques cibernéticos, sua disponibilidade e qualidade podem ser determinantes para que equipamentos críticos continuem funcionando durante momentos de recuperação.

No fim, operar em segurança significa estar preparado não apenas para enfrentar uma ameaça, mas também para continuar funcionando quando ela acontecer.

Pedro Al Shara é CEO da TS Shara, indústria nacional fabricante de nobreaks, estabilizadores de tensão e protetores de rede inteligentes.

Fonte: Cenário Energia — 10/09/2026.

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