O risco real de tratar a confiabilidade elétrica como detalhe técnico

Foto de Jamil Mouallem - Diretor Comercial
Por Jamil Mouallem

O debate público atual sobre o impacto do uso energético em nossas vidas tradicionalmente se volta para duas perspectivas centrais: o custo que ela representa e a quantidade que precisamos consumir. Embora ambas sejam fundamentais, elas não explicam, sozinhas, o verdadeiro peso que a infraestrutura elétrica carrega nos bastidores dessa discussão.

Basta olhar para a produção industrial, a conservação de alimentos, os serviços de saúde, as comunicações e para boa parte da nossa atividade econômica para entender a importância de um fornecimento energético contínuo e estável. Quando essa estrutura funciona perfeitamente, tende a passar despercebida; mas ao falhar, suas consequências aparecem rapidamente, provando que a capacidade energética deve ser, acima de tudo, um debate amplo sobre a sua resiliência.

O impacto da importância da energia ou a falta dela no dia a dia começa muito antes de chegar ao consumidor final. O custo de geração e distribuição interfere diretamente no preço da energia que dimensiona a capacidade de investimentos e ampliação da infraestrutura necessária para o crescimento do país. Um estudo da Ex Ante Consultoria Econômica, contratado pela Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace Energia), aponta que o aumento dos custos da eletricidade respondeu por 48,2% da inflação acumulada nos preços dos investimentos brasileiros entre os anos de 2000 e 2026. O levantamento considera máquinas e equipamentos, edificações, obras de infraestrutura, atividades agropecuárias e desenvolvimento de sistemas.

O custo, porém, é apenas uma parte dessa dependência. Uma indústria pode planejar seu orçamento para absorver despesas maiores, ainda que isso limite investimentos e pressione sua competitividade. Uma interrupção no fornecimento energético traz outro tipo de risco, que varia conforme a atividade, mas pode comprometer processos, equipamentos, dados e serviços. São problemas distintos, embora tenham a mesma origem estrutural: a importância da eletricidade para manter a economia em funcionamento.

Segurança Energética

A expansão dos sistemas digitais tornou essa relação mais visível: transações financeiras, gestão de estoques, comunicação, segurança e atendimento médico e tantas outras atividades críticas ou não dependem de equipamentos e sistemas que precisam de energia para operar. Nas residências, a conexão entre dispositivos também se amplia, acompanhando a adoção de soluções para trabalho, entretenimento e segurança. A eletricidade deixou de ser apenas um suporte para atividades específicas e passou a sustentar uma rede de operações que se cruzam e dependem umas das outras e essa realidade exige atenção a toda a cadeia de fornecimento.

Gerar energia em quantidade suficiente é indispensável, mas não resolve sozinha a necessidade de entregá-la com confiabilidade. Redes de transmissão e distribuição, manutenção, modernização e planejamento para períodos de maior consumo também determinam a capacidade de resposta do sistema. A segurança energética depende tanto da oferta quanto das condições para que ela chegue ao destino quando é necessária.

O recorde de demanda instantânea registrado pelo Sistema Interligado Nacional em fevereiro de 2025, quando a carga alcançou 106.532 megawatts, ilustra muito bem essa pressão. Em períodos de temperaturas elevadas, o aumento do uso de equipamentos de climatização exige mais do sistema elétrico, justamente quando o conforto térmico ganha importância. A demanda não se comporta de maneira uniforme ao longo do ano, e médias de consumo não são suficientes para orientar todo o planejamento. É necessário considerar picos, diferenças regionais e as condições em que a infraestrutura será mais exigida.

No campo das instalações, essa preocupação também precisa chegar à rotina de empresas, instituições e residências. Dimensionamento adequado, manutenção e avaliação dos impactos de uma interrupção ajudam a identificar vulnerabilidades antes que elas se transformem em prejuízos. Em operações nas quais uma parada pode comprometer serviços ou gerar perdas relevantes, recursos de proteção elétrica e alimentação de emergência podem fazer parte da estratégia de continuidade, desde que sejam compatíveis com a necessidade de cada ambiente.

Continuidade Operacional

A transição energética amplia o alcance dessa discussão. Diversificar fontes, reduzir emissões e melhorar a eficiência são objetivos importantes, mas precisam vir acompanhados de infraestrutura capaz de sustentar uma sociedade cada vez mais dependente da eletricidade. O avanço não deve ser medido apenas pela capacidade de produzir energia ou pela participação de fontes renováveis e sim pelas condições de fornecimento, pelos custos envolvidos e pela preparação do sistema para atender à demanda cada vez mais crescente.

Demanda essa que acompanha a evolução dos equipamentos que estão transformando a maneira como trabalhamos, produzimos e cuidamos dos espaços em que vivemos. Essa transformação trouxe ganhos, mas também tornou a continuidade do fornecimento energético mais relevante para atividades que antes não dependiam de tantos recursos conectados.

O debate sobre energia continuará envolvendo tarifas, consumo e expansão da oferta. Esses temas são essenciais, mas precisam dividir espaço com outra preocupação: a capacidade de manter em funcionamento tudo aquilo que já construímos em torno da eletricidade.

O desenvolvimento de um país não depende somente de quanta energia ele consegue produzir, mas, principalmente, de como administra os custos, prepara sua infraestrutura e protege as atividades que dependem dela. Quanto mais a sociedade incorpora a eletricidade à sua rotina, menos a confiabilidade pode ser tratada como um detalhe técnico e mais precisa fazer parte das decisões sobre o futuro.

*Jamil Mouallem é sócio-diretor da TS Shara

Fonte: TI Inside – 20/10/26

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